19 de agosto de 2010

BALTUS, O DRAGÃOZINHO REJEITADO - Afonso Luiz Pereira

Afonso Luiz Pereira mantém o site Contos Fantásticos e, para os amigos do Fórum da Câmara dos Tormentos - como todos sabem, foi onde surgiu este desafio aos escritores de terror -, ele não escreveria um conto "foufo", mas para mostrar que grandes autores passeiam por vários gêneros e estilos, Afonso surgiu com este conto encantador, divirta-se:

BALTUS, O DRAGÃOZINHO REJEITADO


Era uma vez, há muito tempo, lá em terras distantes, onde a magia estava em todas as coisas, aconteceu algo muito estranho na vila dos dragões: Baltus nasceu com um pequeno problema. Nos seus primeiros minutos de vida, ele conseguiu abrir os olhos, esboçou alguns passos, mexeu levemente as asas, mas, infelizmente, não conseguiu expelir uma única chama, pequena que fosse, para provar uma das condições essenciais de sua espécie. Acreditem, Baltus veio ao mundo sem a habilidade de botar fogo pela boca! Nasceu com defeito, decretaram Os Sábios, para a vergonha e tristeza de seus pais.

Quando esta rara fatalidade ocorria na vila dos Dragões, a tradição dizia que o infeliz deveria ser enviado para viver no meio da floresta, sozinho, longe dos seus. Mas Hiera, mãe de Baltus, não teve coragem de abandonar o filho a própria sorte. Por isso, desobedecendo os preceitos da tradição draconiana, ela o deixou perto de uma fazenda de humanos. Pois foi bem assim que Celly, numa linda manhã primaveril, quando recolhia os ovos do galinheiro, encontrou um dragãozinho cinza muito “foufo”. Baltus passou a ser, então, o bichinho de estimação da menininha, para o desespero dos pais dela.

O tempo passou, e o amor da garotinha pelo seu dragãozinho, que já não era tão dragãozinho assim, só fazia aumentar, do mesmo modo que o próprio também crescia. Mas Celly, mesmo sendo uma garotinha ingênua, começou a perceber que Baltus não era um dragão comum. Além da falta das corriqueiras cuspidelas de fogo, que todo bom dragão costumava dar, o seu “bichinho” gostava de nadar no lago, próximo à fazenda. O fato era muito estranho, porque afinal de contas, que ela soubesse, nunca ouvira falar de dragão que gostasse de água.

Em dias de festas, nas ocasiões em que os fazendeiros se reuniam na pequena cidade de Otranto para trocar os produtos das fazendas, não era raro ver a pequenina Celly andando orgulhosa, impávida, dentro dos seus passinhos miúdos, levando o portentoso Baltus para passear. O povo ria da menina, a pobrezinha, lutando para arrastar o dragão pela coleira, na intenção de querer levá-lo para os quatro cantos da Feira dos Legumes.

As notícias da dupla insólita acabaram chegando à Vila dos Dragões. Os Sábios ficaram indignados em saber que um dos seus membros estava sendo motivo de chacota, envergonhando toda a classe draconiana do reino. Era impossível, para eles, imaginarem um animal tão altivo e guerreiro ser manobrado por uma menininha, como se fosse um cachorro. Então, uma comitiva de Dragões investigadores se dirigiu à cidade de Otranto e logo descobriu-se que o “bobo da corte” não expelia fogo de jeito nenhum. Ora, só podia ser o filho rejeitado de Hiera! Os Sábios decidiram expulsá-la, juntamente com o seu companheiro, à solidão da floresta, como punição por ela contrariar os preceitos da tradição.

Mas a encrenca toda não parou por aí, não!

Os dragões e os humanos tinham regras de convivência estabelecidas já de há muito tempo. Os humanos compartilhavam as frutas, verduras e legumes com os dragões, que não sabiam como retirar do solo a comida para o seu próprio sustento, e estes, em retribuição, ofereciam proteção aos fazendeiros contra os povos guerreiros de outras nações. Os dragões exigiram que Baltus fosse enviado, também, à floresta na companhia dos pais. Eles deveriam viver no exílio para sempre. E, aí já viu, né? Celly abriu um berreiro que se podia ouvir a quilômetros de distância. Mas não teve jeito. Baltus foi obrigado a botar a cola entre as pernas, deixando a garotinha aos prantos. Foi uma tristeza de dar dó, coitadinha!

Algumas semanas depois, a saudade no peito de Celly era por demais da conta. De vez em quando, a garotinha passava a esgueirar-se, discretamente, para dentro da floresta. Ninguém tinha o direito de impedir uma amizade tão bonita, não é mesmo?

Os meses passaram-se sem muitas novidades. No entanto, o destino dá as suas voltas, e, vira e mexe, acaba cobrando das criaturas que vivem sobre a terra, o preço das suas injustiças. No final daquele mesmo ano, na estação das colheitas, uma forte estiagem tomou conta da região do Vale de Otranto. As plantações mirravam a olhos vistos, e estariam totalmente comprometidas, caso as chuvas tardassem a cair por mais alguns dias. Humanos e dragões, para evitar a fome, decidiram se reunir para estudar o problema da seca. E não é que o filhote de Tagor, o líder supremo dos Sábios Dragões, depois de comer todas as maçãs de uma cesta, deu um baita arroto na direção de uma plantação de milho? Arroto de dragão, como se sabe, não é que nem arroto de gente! O que saiu da boca do herdeiro de Tagor foi uma labareda intensa, feito um lança-chamas! O fogo na palha do milho alastrou-se como pólvora. Foi um desespero. Tinha-se inaugurado a primeira queimada em grande escala nas terras de Otranto!

A correria foi grande!

Cada morador e dragão da região foram convocados para ajudar. Em meio à fumaça e o desespero de apagar o fogo impetuoso, o pai de Celly deu por falta de sua única filha. Enquanto no céu, dragões e mais dragões carregavam pequenos baldes de madeira, abastecidos com água do riacho próximo, para jogar na grande fogueira, e centenas de homens e mulheres batiam roupa para abafar as labaredas, o pai da menina se esgoelava, no meio do caos, enlouquecido de preocupação:

— Celly, Celly, minha filha, onde você está?

A resposta, surpreendentemente, veio de algum ponto no céu:

— Aqui, papai!

Bem, não é necessário ser um gênio para saber o que virá a seguir, certo?

Pois é, dragões e humanos ficaram pasmos quando viram a menina montada no pescoço do dragão cinza rejeitado. E todos ficaram mais pasmos ainda, quando perceberam a barriga inflada de Baltus, que vinha num voo rasante, e, numa manobra precisa, abrindo a bocarra, lançou um jato d’água largo e duradouro por sobre a enorme fogueira. O bombeiro voador não precisou mais do que duas viagens de barriga cheia para dar conta do recado.

Muito bem. Para não alongar ainda mais a história, faço um resumo dos fatos que se seguiram: Baltus tornou-se herói para os humanos e dragões, tornou-se o maior borrifador de plantações, em épocas de estiagem, obteve sua condição de igual dentro da nação draconiana e visitava a menina Celly quase todos os dias.

Enfim, todos viveram felizes para sempre.

Ah, ia esquecendo, o filho de Tagor levou um baita cascudo no cocoruto para aprender a arrotar direito. Ora bolas, vamos combinar, que bichinho desastrado era aquele!!!

FIM

Um comentário:

  1. Os adultos vivem dizendo que a adolescência é um dos perídos mais
    marcantes da vida. Mais o que o adolescente pensa disso? (sinopse do meu blog)
    Acessa o meu blog?
    "Blog de uma adolescente"

    http://blogdeumagarotaadolescente.blogspot.com/

    Espero a sua visita, se gostar do meu blog, segue lá, ficarei muito feliz.
    Desde já obrigada, tenha uma ótima semana.
    Atenciosamente Tainã Almeida.

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