24 de julho de 2010

O Relógio - por Paulo Soriano

O grande escritor de LitFan e amigo querido Paulo Soriano é mais um dos desafiados para escrever um conto para crianças que aceitou e o resultado é fantástico.

O Relógio
Para Celly

- Annabella - disse o moleiro -, é tempo de ir à vila vender a minha farinha. Você é quase uma mocinha e saberá cuidar-se bem. Tome conta da casa com o mesmo cuidado que a sua mãe cuidaria, se viva fosse. E não abra a porta para estranhos. Estarei de volta amanhã à noitinha.
A menina de 12 anos abraçou o pai, dizendo que ficaria bem.
Na manhã seguinte, bateram-lhe à porta.
- Quem bate? - perguntou a menina.
- Um pobre homem que precisa de ajuda - respondeu alguém.
Annabella correu à janela e abriu a veneziana.
- O que o senhor deseja? - indagou Annabella, olhando, assustada, para o homem. Realmente, era com um horrível ancião que a menina falava.
- Não tenha medo de mim. Apesar de minha aparência, tenho bom coração.
- Meu pai não me deixa falar com gente estranha Eu sinto muito, mas não posso ajudá-lo.
Annabella já ia fechar a veneziana, quando o homem implorou:
- Linda criança, se você não me socorrer, eu morrerei!
- De que o senhor precisa?
- Eu era relojoeiro - prosseguiu o velho homem -, mas agora vivo a esmolar. Tudo por causa de um encanto de uma fada má e ciumenta. Eu quase não enxergo mais, minhas mãos são fracas e trêmulas. Assim, não consigo dar corda ao relógio. Preciso que você o faça, antes que ele pare. Se ele cessar os movimentos, eu morro imediatamente. E, neste preciso instante, a corda está acabando.
A menina abriu a porta pediu que o homem entrasse.
- Dê cá o relógio - disse Annabella.
- Boa menina - disse o homem, aliviado, em tom de confidência -, quanto mais corda você der, maior será a minha sobrevida.
Annabella era uma criança compassiva. Pediu ao homem que se sentasse próximo à lareira e que alimentasse a chama. E se pôs a dar corda ao relógio inteira. Quando, exausta, concluiu a tarefa, o galo já cantava, porque o sol estava quase a nascer.
- Muito obrigado! - disse o velho homem. - Você não só salvou a minha vida como me encheu de anos. Como sinal de gratidão, eu lhe dou um presente.
O ancião meteu a mão na algibeira e de lá retirou um relógio de latão.
A princípio, a menina não ficou satisfeita com o que ganhara, já que o relógio era muito velho e sem valor. Mas, como nada exigira em troca de seus serviços, o aceitou de bom grado, imaginando que a quinquilharia teria alguma serventia ao seu pai. O velho, agradecido, continuou:
- Este relógio é especial. Uma boa fada pôs nele um encanto. Se você adianta o relógio, envelhece. Se atrasa, rejuvenesce. Mas você deve usá-lo com sabedoria, pois somente por três vezes o relógio servirá a você.
E, dizendo isto, o ancião partiu.
Annabella guardou o presente em seu pequeno baú, juntamente com seus brinquedinhos, fitas e adereços preferidos e esperou, pacientemente, por uma oportunidade de desfrutar de seus encantos.
A ocasião veio alguns meses depois.
Arautos do rei Edgar anunciaram uma grande festa, à noite, no salão do palácio de Cronos, em comemoração aos 18 anos do príncipe herdeiro.
Quando soube do espetáculo, Annabella murmurou consigo mesma:
- Quem me dera ser um tanto mais velha! Na minha idade, não me deixarão entrar no baile!
De súbito, os olhos de Annabella se iluminaram. Sim, era isso!
Annabella correu ao baú, colheu o relógio e, com grande ansiedade, à frente do espelho do quarto, pôs-se a dar voltas no dispositivo da corda, fazendo com que os ponteiros se deslocassem velozmente para a direita. E, à medida que os ponteiros deslizavam sobre o marcador, Annabella vislumbrava, com o coração acelerado, as transformações em seu corpo e em sua face.
Quando Annabella parou, já não mais era uma criança: era uma linda jovem, no esplendor da adolescência.
Aproveitando-se da ausência do pai, que fora à vila mercar a farinha de trigo, Annabella vestiu as roupas de gala da mãe, que falecera no inverno anterior, e rumou, alegre, para o palácio de Cronos.
Que festa maravilhosa! O belo e gentil príncipe Allan estava deslumbrado. Não tinha olhos para ninguém, exceto para Annabella, com quem bailou toda noite. Mas, quando o sol desprendeu os seus primeiros fios dourados de luz, Annabella despediu-se do príncipe e retornou a casa. Lá, com a ajuda do relógio, voltou ser a menina de apenas 12 anos.
O príncipe Allan, que se apaixonara perdidamente pela moça, percorreu todo o reino, à sua procura. Por isso, certa tarde, bateu à porta da casa do moleiro que, com grande satisfação, fez o príncipe entrar.
Vendo Annabella sentada junto à lareira, a bordar com esmero um pano de prato, o príncipe exclamou:
- Onde está a irmã mais velha dessa garota? Vejo que ela se parece muito com a minha amada.
- Oh, príncipe Allan - respondeu o moleiro -, ela é a minha única filha.
Admirada, Annabella olhou para o príncipe. Seu coração acelerou. A face corou. E as mãozinhas puseram-se a tremer. Então, disse Annabella:
- É verdade, príncipe. Sou filha única. Não tenho irmã.
O príncipe retornou ao palácio de Cronos com a alma em destroços. E jurou que jamais se casaria com outra mulher que não fosse a moça de seus sonhos, aquela jovem maravilhosa com quem bailara no salão de festas do palácio de Cronos.
Os anos se passaram. Annabella cresceu e tornou-se uma linda adolescente.
Certa feita, estando o pai acamado, Annabella teve de ir à feira, mercar a farinha de trigo. Estava a moça a combinar o preço com um feirante, quando dela se aproximou um belo rapaz. Annabella o reconheceu imediatamente. Era o príncipe Allan.
- Acho que minhas buscas terminam aqui - disse, admirado, o príncipe. - Você não é a jovem que bailou comigo até o amanhecer?
- Sim! - respondeu Annabella.
Uma semana depois, para a alegria de todos, Annabella e Allan estavam casados. Nunca houve uma festa tão suntuosa no reino de Rellog.
Como o tempo não perdoa ninguém, Annabella envelheceu.
Estava ela – agora rainha - já bem idosa, muito doente, e pareceu que iria morrer.
- Minhas horas estão contadas - disse Annabella ao rei Allan. - Morrerei em breve!
- Ah, querida! Eu faria tudo para que suas horas fossem prolongadas!
A face de Annabella encheu-se de um estranho fulgor. Ela havia se lembrado do ancião, cuja vida salvara. E, também, do velho relógio, que, há muitos anos, havia guardado no baú de miudezas.
Seguindo as instruções de Annabella, os pajens trouxeram a ela o relógio de latão. Então, com as mãos incrivelmente firmes, Annabella pôs-se a movimentar os ponteiros para a esquerda. Admirado, o rei Allan viu que sua amada, aos poucos, rejuvenescia.
- Annabella, você já não é mais uma mulher idosa. Por milagre, você está com a mesma aparência que tinha quando eu a conheci! Já não posso ficar com você, visto que sou um homem idoso e você, tão jovem, não há de me querer.
- Este relógio é especial - respondeu Annabella. - Uma boa fada pôs nele um encanto. Se você adianta o relógio, envelhece. Se atrasa, rejuvenesce. Mas você deve usá-lo com sabedoria, pois somente por três vezes o relógio terá serventia.
O rei agradeceu.
Neste mesmo dia, o povo de Rellog teve uma grata surpresa: os seus soberanos eram jovens novamente. Teriam muitos, muitos anos de prosperidade pela frente, sob a prudente autoridade de monarcas justos e generosos.

4 comentários:

  1. Paulo Soriano é um escritor incrível, e este conto belissimo comprova isso. Parabéns ao escritor e a Celly pela ideia do desafio.

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  2. Paulo Soriano é um escritor maravihoso!!!este conto é lindo!!!!!

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